José Aniervson Souza dos Santos
Durante muito tempo a juventude foi vista como o problema da política, da igreja, da escola, da polícia, da família, enfim das instituições. Hoje ela precisa ser encarada como sujeito, como protagonista. Muitas das ações desenvolvidas hoje restringem o jovem a uma única ação, um local, um pensamento e impede que os mesmos possam desenvolver suas potencialidades e capacidades inerentes a sua ideologia e cultura própria da época.
É comum, infelizmente, serem criados diversos projetos e/ou programas direcionados ao público juvenil não como forma de protagonizá-los, mas como meio de “castrar” seus impulsos, desejos, personalidade, pensamentos e suas ideologias. Do contrário eles próprios seriam os co-construtores desses programas. O tempo todo assistimos cenas de criminalização com adolescentes e jovens. Será uma forma de dizer que os mesmos são culpados pela violência? Perguntamos quem é o responsável pela segurança? O porquê será que os adolescentes e jovens são os que mais morrem nas mãos dos policiais e dos bandidos ? Por que tantos jovens se envolvem com drogas, com o narcotráfico? Por que será que existe tanto caso de abuso sexual na adolescência? Porque a metade dos desempregados no País é Jovem ? Por que existem tantas adolescentes grávidas ou pais de famílias jovens ? Essas e outras perguntas já passaram por nossas cabeças com respostas prontas. Minha intenção aqui não é inocentar o jovem pelos seus atos, do contrário, desejo entender o que levam os mesmos a cometê-los.
Porque então os jovens devem negar sua própria cultura, seus costumes, sua regionalidade, sua personalidade para poderem ser aceitos em espaços públicos? Porque será que volta e meia a sociedade quer fazer o jovem negar sua tradição, sua identidade para permitir que os mesmos assumam alguns cargos? Será que um jovem que usa seu cabelo “rastafari” não tem os mesmos direitos que um jovem que tem seu cabelo liso? É culpa dele ter nascido negro e querer assumir sua cultura, seu estilo? Será que uma jovem negra pra ser aceita num emprego e não ser vista como delinqüente deve mesmo alisar seu cabelo e esquecer sua cultura, como se fosse envergonhante ser negra? Porque então não entender as suas tatuagens como resiginificação do corpo, dar um novo sentido talvez a alguns traumas, esquecer acidentes, esconder marcas que a própria sociedade não aceitaria? Porque então os jovens precisam se articular em “grupo”, “galera” para serem ouvidos, aceitos, respeitados? Não será uma maneira de chamar a atenção da sociedade para gestos e atitudes de exclusão e reclusão? Não seria então a pichação uma maneira de dizer que existem e precisam ser ouvidos, levados em conta, precisam ser respeitado? E porque então discriminar os Jovens pela sua Orientação Sexual? Será que somos donos da verdade que não podemos aceitar as diferenças dos outros? Que explicação se dá para uma sociedade que criminaliza, penaliza e até extermina jovens pela sua vivência da sexualidade de maneira diferente daquilo que foi imposto pela sociedade, onde a mesma sem perceber e muitas vezes até consciente rotula esses jovens e os condenam. Realmente tudo isso é necessário? Costumamos rotular a atitude dos jovens pelo que vemos e não pelo que é verdadeiramente, afinal, nem ao menos procuramos entende-los.
Sonhamos com um mundo de justiça e paz, onde todos possam se amar e respeitar um ao outro. Sonhamos em um dia todos poderem andar na rua sem medo de assaltos, deixar tranquilamente seus filhos com o vizinho. Sair a noite sem medo do escuro. Mas afinal, o que estamos fazendo para que isso aconteça? Será que comprando armas e colocando em nossas casas, estamos seguro do assalto? Ou exterminaremos o primeiro que nos tentar assaltar? Desviar o caminho ou trocar de calçada quando se avista um jovem de calças largas, tatuagens, cabelos longos ou “black power” não é uma forma de extermínio, exclusão, pré-conceitos, ao invés de segurança e precaução?
Existem algumas manifestações juvenis, como os punks, darks, carecas do subúrbio, emos, roqueiros, sertanejos, skatistas, afros, campesinos, indígenas, hippies, entre tantos outros, mas todos eles manifestam sua cultura e um gosto específico, algo em comum entre os adeptos ao seguimento. É necessário olhar pra esses jovens com perspectivas e não como desordeiros, pois eles são fieis ao que acreditam, vemos isso claramente em suas atitudes, músicas, símbolos, etc. é seu período de descobertas, crises, conquistas. “O Jovem é alguém que vive a descoberta alucinadamente” (DICK, 2004, p. 65)
Podemos perceber que nos últimos anos o debate sobre juventude e sobre as políticas públicas destinadas a esse seguimento tem crescido bastante. O fenômeno juvenil tem sido alvo de diversas pesquisas, tanto dos governos públicos como de ONGs, movimentos sociais e religiosos, estudiosos, acadêmicos, entre outros, tendo visivelmente a crescente “onda” de projetos e entidades ligadas ao assunto.
É necessário iniciar um debate sério sobre as políticas que estão sendo destinadas a Juventude. Não é necessário apenas cria-las, mas permitir que elas atinjam de verdade os jovens. Foucault explica que “haveria, assim, que abandonar a idéia de centro pela idéia de rede do poder, que acentua a tensão estratégia do relacional em vez do teleológico” (FOUCAULT, 1969) . É permitir então que seja criada uma espécie de “rede”, onde todos possam participar de sua elaboração, nesse caso específico, o Jovem.
Falar da Juventude na sociedade é falar na construção de um outro mundo possível, na utopia do amor. Civilização do Amor!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FOUCAULT, Michel. A Escola de Ciência Política. Postado por Mestre Zé Rodrigo em 5 de julho de 2007. Disponível em http://farolpolitico.blogspot.com/2007/07/foucault-michel-1926-1984.html.. Acesso em 24 jan. 2010.
DICK, Hilário. O divino no jovem: elementos teologais para a evangelização da cultura juvenil. Porto Alegre: Instituto de Pastoral da Juventude: Rede Brasileira de Centros e Institutos de Juventude, 2004.